Que eu sou fã do Kiro não é novidade para ninguém.
E quem acompanha meu trabalho há algum tempo provavelmente já percebeu que eu gosto bastante de ferramentas de linha de comando. Existe uma objetividade no terminal que eu adoro: você abre, faz o que precisa fazer e segue a vida.
Sem interface tentando chamar atenção, sem dezenas de menus e, principalmente, sem precisar brigar com a ferramenta para conseguir trabalhar.
Tenho acompanhado a evolução do Kiro CLI desde que o querido ainda era o conhecido Amazon Q.
E 2026 trouxe algumas mudanças que fizeram a ferramenta dar um passo importante.
Não estou falando apenas de novas atualizações. O Kiro CLI está ficando mais poderoso, mais integrado ao fluxo de trabalho e mais próximo de um ambiente onde agentes realmente conseguem participar do nosso trabalho. Em resumo mais inteligente.
Por isso, resolvi dividir essa conversa em uma pequena série.
Neste primeiro post, vou falar sobre o que mudou.
Nos próximos, quero discutir uma questão que considero ainda mais importante:
o que acontece quando começamos a dar autonomia para essas ferramentas?
Mas vamos começar pelo começo.
Voice Mode: finalmente podemos falar com o terminal
A novidade mais recente é também uma das que mais me chamou atenção.
O Voice Mode permite interagir com o Kiro utilizando a voz em vez de digitar os prompts.
Você pode ativar o modo com:
/voice
ou utilizar o Espaço como push-to-talk.
A princípio, parece apenas uma comodidade.
E eu confesso que, quando vejo uma funcionalidade dessas, minha primeira reação costuma ser:
"Legal. Mas eu realmente vou usar isso?"
Só que existe uma característica aqui que muda bastante a conversa.
A proposta é que a transcrição seja feita localmente utilizando o OpenAI Whisper.
E aí já começamos a falar de algo que me interessa muito mais: privacidade.
Quando você fala com uma ferramenta de IA, sua voz também é um dado.
Dependendo do contexto, uma conversa pode conter informações sobre clientes, incidentes, infraestrutura, vulnerabilidades, nomes de servidores ou qualquer outra coisa que não deveria simplesmente sair da máquina.
Se a transcrição acontece localmente, reduzimos uma superfície de exposição.
E isso, para mim, é muito mais interessante do que simplesmente:
"Agora você pode conversar com o terminal."
Onde eu usaria?
Imagine uma investigação acontecendo.
Você está acompanhando logs, olhando dashboards, alternando entre documentação e terminal e precisa rapidamente orientar o agente sobre o próximo passo.
Digitar tudo pode ser mais lento do que simplesmente falar.
O push-to-talk começa a fazer bastante sentido nesse cenário.
Mas existe uma ressalva importante:
privacidade não significa segurança automática.
Mesmo que o áudio seja processado localmente, ainda precisamos pensar sobre permissões, contexto, acesso aos arquivos e principalmente sobre o que o agente pode fazer depois de interpretar aquele comando.
E essa discussão vai aparecer bastante nos próximos posts.
Nova TUI: o terminal também merece uma boa experiência
Outra mudança importante é a nova Terminal UI (TUI).
A ideia é melhorar bastante a experiência de interação com o agente sem abandonar aquilo que torna o terminal tão interessante.
Eu gosto dessa escolha.
Não precisamos transformar o terminal em um aplicativo gráfico para melhorar sua usabilidade.
Podemos simplesmente aproveitar melhor o espaço que já temos.
A nova interface traz navegação, painéis, histórico e indicadores de atividade que ajudam a entender o que está acontecendo enquanto o agente trabalha.
E isso é particularmente importante quando começamos a trabalhar com agentes que executam várias coisas ao mesmo tempo.
Temas
O /theme permite escolher diferentes opções de visualização.
Parece um detalhe.
Mas quem passa horas olhando para terminal sabe que conforto visual também é produtividade.
Não é frescura.
É ergonomia.
Painéis pesquisáveis
Comandos como:
/help, /context, /tools, /mcp, /knowledge
ganham uma experiência mais organizada, com painéis que podem ser pesquisados.
Isso resolve uma dor pequena, mas extremamente real:
aquela situação em que você sabe que determinada informação está ali, mas precisa ficar rolando uma saída enorme para encontrá-la.
E quem trabalha com segurança sabe:
informação sem contexto e sem organização rapidamente vira ruído.
Crew Monitor
Para quem utiliza subagents, o Crew Monitor permite acompanhar o que está acontecendo em paralelo.
E aqui começa uma mudança de mentalidade que considero importante.
Quando começamos a delegar tarefas para agentes, precisamos também melhorar nossa capacidade de observar o que eles estão fazendo.
Não basta ter automação.
Precisamos de visibilidade.
Activity Tray
Outra mudança interessante é poder continuar interagindo enquanto o agente está trabalhando.
Você pode deixar novas mensagens enfileiradas em vez de simplesmente ficar esperando a execução terminar.
Parece pequeno.
Mas representa uma mudança importante:
a IA trabalha em paralelo com você, e não necessariamente no lugar de você.
Session Management: parar de começar tudo do zero
Essa talvez seja uma das funcionalidades menos "instagramáveis" da lista.
E talvez uma das mais úteis.
O Kiro CLI passou a salvar automaticamente as sessões a cada turno da conversa.
Isso significa que você pode fechar o terminal, voltar depois e continuar de onde parou.
Você pode retomar a sessão mais recente:
kiro-cli chat --resume
Ou abrir um seletor:
kiro-cli chat --resume-picker
Também é possível recuperar uma sessão específica:
kiro-cli chat --resume-id <SESSION_ID>
E dentro da conversa temos comandos como:
/chat save, /chat load, /session-id
Para quem trabalha com projetos longos, investigações ou troubleshooting, isso é uma melhoria enorme.
Você não precisa começar a conversa novamente toda vez que o terminal fecha.
Mas, olhando com a cabeça de segurança, eu vejo outra coisa aqui:
contexto e rastreabilidade.
E esse assunto merece um post inteiro.
Rewind: porque errar também faz parte
Outra funcionalidade que gostei bastante é o /rewind.
Ele permite voltar para um ponto anterior da conversa e criar uma nova linha de investigação sem simplesmente jogar fora todo o contexto anterior.
E isso faz muito sentido quando trabalhamos com agentes.
Porque agentes erram.
Nós erramos.
E, principalmente, a interpretação de um problema pode mudar no meio do caminho.
Em vez de apagar tudo e começar novamente, podemos voltar para um ponto anterior e testar outra abordagem.
É quase aquele clássico:
"Ok, essa linha de raciocínio não funcionou. Vamos voltar aqui e tentar outra coisa."
Quanto mais autonomia damos para agentes, mais importante se torna ter mecanismos para desfazer, revisar e experimentar.
Mais do que novas funcionalidades
Se eu tivesse que resumir as mudanças do Kiro CLI em uma frase, seria:
ele está deixando de ser apenas uma IA dentro do terminal.
Está começando a se transformar em um ambiente de trabalho agentic.
E isso muda bastante coisa.
Quando uma ferramenta consegue:
manter contexto; persistir sessões; trabalhar com subagents; acessar ferramentas; executar comandos; modificar arquivos; continuar uma investigação; e acompanhar o que está acontecendo;
ela deixa de ser simplesmente um chatbot.
Ela começa a fazer parte do nosso processo operacional.
E é exatamente aqui que a conversa deixa de ser apenas sobre produtividade.
E segurança entra onde?
Em praticamente tudo.
Voice Mode traz uma discussão sobre privacidade.
Session Management traz uma discussão sobre armazenamento e retenção.
Subagents trazem uma discussão sobre visibilidade.
Execução de ferramentas traz uma discussão sobre permissões.
E quanto mais capacidade o agente recebe, maior fica a nossa responsabilidade sobre o que permitimos que ele faça.
É por isso que eu não quero terminar essa série falando apenas:
"Olha que legal, o Kiro ganhou várias funcionalidades."
Quero discutir uma questão um pouco mais desconfortável:
quanto acesso estamos dispostos a dar para uma IA que consegue executar tarefas por nós?
Porque tecnologia boa não é aquela que simplesmente faz mais coisas.
É aquela que consegue fazer mais sem fazer a gente perder o controle.
E essa é só a primeira parte
No próximo post, vamos sair um pouco da lista de funcionalidades e entrar de verdade na discussão de segurança.
Porque existe uma diferença enorme entre:
usar uma IA
e
dar autonomia para uma IA.
E essa diferença vai ficar cada vez mais importante.